23 Guerreiros

24/11/2012

侍Anderson Polga 侍 23 Samurais 戦士 Guerreiros Do Mundial 2012

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Escrito por: Pablo
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Até os 17 anos de idade, Anderson Polga jamais havia namorado, ido ao cinema e nem visto o mar ou um avião. Até então, em 1996, ele nunca havia saído de Santiago, a “terra dos poetas”, onde nasceu, no interior do Rio Grande do Sul. Mas depois que saiu… O tímido adolescente jamais imaginava que ao entrar no ônibus, na rodoviária da tacanha cidade, percorreria muito mais do que os quase 500 quilômetros até Porto Alegre. Seis anos depois, ele já era um homem casado, campeão nacional e estava no Japão, dono do mundo com a seleção brasileira.

No mesmo Japão em que estará com o Corinthians, em dezembro. No mesmo estádio Internacional de Yokohama. Assim como em 2002, Polga não deverá estar em campo nas partidas decisivas, o que não vai tirar seu nome da história. Prova disso está no vestiário do estádio, local que o zagueiro está ansioso para rever.

– Temos uma história linda lá. Nossas camisas estão lá, as assinaturas nos armários também. Será emocionante poder ver aquilo tudo de novo. Tudo vem à cabeça, e o desejo de comemorar novamente.

A vida de Polga demorou a engrenar, mas é repleta de emoções desde a infância em Santiago, quando morou em frente ao estádio municipal onde jogava o Cruzeiro, time da cidade. Foi lá e no Tamiosso, equipe de futsal do bairro formada pelos meninos vizinhos, que ele se encantou pelo futebol. Com uma força fora do comum, que o fazia jogar nas três categorias de base: infantil, juvenil e júnior.

O grande baque familiar veio cedo, aos sete anos, quando o pai João sofreu um Acidente Vascular Cerebral e mudou a rotina da casa. Debilitado, precisou da ajuda de todos, e a força que o garoto demonstrava no futebol logo foi aproveitada na empresa de pintura do tio. Anderson era ajudante de limpeza.

– Tinha que mexer com ácido, tirar aquelas tintas de vidro, lixar parede… As pontas dos dedos nem existiam mais. Era dolorido, mas necessário.

O salário, menor que o mínimo, nem ajudava em casa. Servia para o próprio sustento: comprar roupas, chuteiras… Nada parecido com a farda que a mãe, dona Iolanda, sonhava ver no filho. Santiago é tradicional pelos quartéis, e pela quantidade de jovens que seguem carreira militar. Apesar da pressão materna, Anderson nem cogitou.

Com uma fala mansa, um sorriso discreto quase integrado ao rosto, ele parece viajar no tempo quando se lembra dos campeonatos amadores contra times regionais. Época de amadurecimento forçado pelas confusões. Sempre mais novo, Polga apanhava muito durante e tinha de correr para não apanhar muito depois dos jogos.

– Era aquela coisa, se o juiz não roubasse para os times da cidade, nem saíam do estádio (risos). Uma vez tivemos de nos trancar no vestiário porque a coisa foi feia.

Mais bem organizada era a Copa Santiago, tradicionalíssimo torneio de juvenis que recebia times de outros estados e até de países estrangeiros. Anderson disputou três. Na última, fez três gols em três jogos, e dividiu a artilharia com um rapaz mulato e dentuço do Grêmio, chamado Ronaldo. Seu futuro parceiro Ronaldinho Gaúcho. E com uma ressalva que o atual zagueiro faz com bom humor: o craque gremista fez os mesmos três gols, só que em sete jogos. Ou seja, Polga teve média superior à de Ronaldinho. Histórico.

O desempenho fez com que o Grêmio quisesse levá-lo a Porto Alegre, e foi preciso um time de mais de dez pessoas, entre dirigentes do Cruzeiro e o cônsul do Tricolor gaúcho na cidade, para convencerem dona Iolanda de que o filho não seria mesmo um militar, e sim jogador de futebol.

Na capital, Polga começou a conhecer o mundo. Foi ao aeroporto para ver de perto e tirar uma foto de um avião, comprou ingresso para o cinema, algo que até então ele nem imaginava. E teve duas namoradas antes de se casar com a terceira, Bruna. Ronaldinho virou parceiro de equipe e também de Seleção, a partir do instante em que Luiz Felipe Scolari o convocou, um ano antes da Copa do Mundo, quando a equipe ainda passava por testes.

O primeiro chamado, em janeiro de 2002, foi quase tão surpreendente quanto o definitivo, para disputar o Mundial, meses depois.

– Eu estava chegando a Santa Maria, no ônibus do Grêmio, para jogar pelo Gauchão, quando meu empresário ligou. Era a concretização de um sonho distante, e a ficha demorou a cair. Acho que só quando meus colegas de time deram parabéns, e jogadores experientes, que já haviam passado por aquilo, falaram comigo.

Já pentacampeão, o menino de Santiago foi a Lisboa: nove anos no Sporting e o orgulho de ter aberto portas para outros brasileiros, e ajudado a apagar a fama de que jogadores do país não permanecem por muito tempo no mesmo clube e têm dificuldades de adaptação. Sem falar no fato de ter enfrentado por várias vezes jogadores que estão no Chelsea. Foram mais de 70 jogos em ligas europeias. Conhecimento para o Timão.

O retorno ao Brasil reservaria o reencontro com Tite, seu treinador no primeiro título nacional, pelo Grêmio, em 2001. Por ironia, a Copa do Brasil contra o Corinthians, no Morumbi lotado. Um dos raros momentos, ao lado da Copa do Mundo, em que o jogador deixou a serenidade e o jeito calmo de lado, e extravasou totalmente.

– Acho que ficamos uns 30 minutos correndo ali no Morumbi. Era meu primeiro título, um momento especial. E na Copa foi uma loucura. A gente não sabia se sambava, corria, pulava, cada um fazia uma coisa, era uma adrenalina tão grande que pouco me lembro dos detalhes.

Detalhes que serão revistos agora, em Yokohama, possível palco de mais uma glória em sua carreira. E ao lado do “tutor” Tite, uma das pessoas responsáveis pelo caráter de Anderson Polga. Caráter, a palavra escolhida pelo zagueiro para definir sua existência.

– Isso já veio de família, e quase todos os treinadores que tive se apoiaram em caráter, humildade, honestidade e respeito de uns pelos outros. Se eu cheguei aos 33 anos, sendo nove em Portugal, foi graças às minhas atitudes, e pretendo ter mais alguns anos pela frente. É uma coisa que trouxe comigo desde pequeno, e me ajudou muito. O torcedor do Corinthians pode ter certeza que não vão faltar força, vontade e determinação para trazermos esse título.



Sobre o Autor

Pablo
Coordenador de Suporte, Governador da República Popular do Corinthians e Louco pelo Timão!




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